quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"os brasileiros gostaMOS"

Ontem, li e ouvi vários comentários sobre uma frase proferida por Caetano Veloso no Programa do Jô (Veja no vídeo abaixo). Resolvi, então, fazer alguns esclarecimentos, do ponto de vista gramatical.
O motivo de tantos comentários foi este trecho da fala do inteligente compositor baiano:

“... acho que é por isso que os brasileiros gostaMOS.”

CORRETÍSSIMO! Isso mesmo. Não há aí nenhum desvio da norma culta da língua, visto que o falante fez uso da concordância ideológica ou silepse, uma figura de construção em que a concordância não é feita de acordo com as palavras que efetivamente aparecem na oração, mas segundo a ideia que elas associam ou segundo um termo subentendido .

No caso de Caetano, sua fala está adequada porque ele se incluiu como brasileiro.

Veja outros exemplos de concordância ideológica ou silepse:

“Rio de Janeiro continua maravilhosa, agitada e violenta” (concorda com a cidade – feminino)

A molecada corria pela rua e atiravam pedras. (Concorda com a noção de quantidade expressa na palavra molecada)

Os pobres sofremos muitas humilhações no Brasil. (O falante se inclui no grupo dos humilhados)





Dúvidas??? Deixe nos comentários!

Minha próxima aquisição

Dizem que 1001 livros para ler antes de morrer é perfeito para os leitores apaixonados, para quem está escolhendo sua próxima leitura ou deseja conhecer um pouco mais sobre grandes obras e seus autores.




PS: Vou adquirir um exemplar e, quando acabar a leitura, colocarei aqui minhas impressões.

Leitura e encantamento

sexta-feira, 29 de julho de 2011

BASTANTE X BASTANTES



Dia desses, uma amiga veio, ansiosa, me mostrar um erro encontrado por ela nas palavras cruzadas da revista Coquetel. Ela se referia à palavra BASTANTES registrada no final da revista como resposta correta.

Ela dizia que essa palavra é invariável e, como tal, não poderia ser escrita no plural.

Na verdade, não houve erro. BASTANTE só é invariável quando exerce a função de ADVÉRBIO. Ou seja, quando se refere a um verbo, a um adjetivo ou a um outro advérbio. Mas quando se refere a um substantivo, pode ser ADJETIVO ou PRONOME INDEFINIDO, e, nesse caso, é variável, concorda com o termo ao qual se refere. Veja:

1. BASTANTE será advérbio de intensidade e invariável quando significar muito, suficientemente e referir-se a um verbo, adjetivo ou advérbio.

Elas falam bastante (muito, suficientemente).

Elas são bastante (muito, suficientemente) simpáticas.

2. BASTANTE será adjetivo e variável quando significar suficiente(s). Nesse caso, estará após o substantivo e deverá concordar com ele.

Há provas bastantes (suficientes) para incriminá-los.

3. BASTANTE será pronome indefinido e variável quando expressar quantidade indefinida. Nesse caso, virá antes do substantivo e com ele concordará.

Havia bastantes torcedores no estádio ontem.

quinta-feira, 28 de julho de 2011





Alguém já disse que deveria ser tudo a mesma coisa. Mas como não é isso que ocorre, segue uma ajudinha:

AO INVÉS DE é "o contrário de", "o inverso"
"Ele entrou à direita ao invés da esquerda."
"Subiu ao invés de descer."

Observe que DIREITA é o contrário de ESQUERDA; SUBIR é o contrário de DESCER.

Não devemos usar, portanto, AO INVÉS DE quando não há a exposição de contrários, de opostos. Nesse caso, cabe a locução EM VEZ DE, que significa "no lugar de":

"Foi ao clube em vez de ir à praia."
"Apertou o botão vermelho em vez do azul."

Repare: CLUBE não é  contrário de PRAIA; VERMELHO não é o contrário de  AZUL.

UMA DICA: 
Como AO INVÉS DE só pode ser usado quando há ideia de "oposição", sugiro que se use sempre EM VEZ DE, que pode ser usado sempre que houver ideia de "substituição, troca" , mesmo se for de "oposição".

Ajudinha do Pasquale






“Ele (Marcos Sabino) ficou conhecido em 82 onde ele vendeu milhões de cópias do disco...”
“O orçamento público é uma lei onde se exprime a alocação dos recursos públicos.”
“Fizemos um trabalho especial onde procuramos atender a todos.”

Essas são algumas das frases que leio e ouço com frequência por aí. As pessoas usam e abusam do pronome relativo onde, empregando-o em total desacordo com o padrão culto da língua. Isso ocorre porque o referido pronome quer dizer: “o lugar em que”. Assim, só devemos usá-lo quando o termo antecedente for um local, um lugar.

Dessa forma, nas frases acima, os antecedentes de onde são: 82 (ano, que denota tempo), lei e trabalho. Nenhum desses termos denota lugar.

Portanto, vamos às correções:

Ele ficou conhecido em 82, quando vendeu milhões de cópias de disco.
O orçamento público é uma lei em que se exprime a alocação dos recursos públicos.
Fizemos um trabalho especial com o qual procuramos atender a todos.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

"Dez bons conselhos de meu pai"




 
Depois de grandes obras-primas, como “Viva o povo brasileiro”, “Sargento Getúlio” e “A Casa dos Budas Ditosos”, João Ubaldo Ribeiro lança seu primeiro livro infantil: “Dez bons conselhos de meu pai”. Com ilustrações fortes e criativas, a obra não conta uma história, mas apresenta, em sentenças curtas, o resumo das diretrizes de vida mais importantes passadas por seu pai. “Não seja ignorante”, “Não seja burro”, “Não seja amargo” e “Nunca seja medroso” são algumas delas.

Apesar de ser classificado como infantil, sua leitura em família poderá promover prazerosos momentos de reflexão entre pais e filhos.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

123º aniversário de Fernando Pessoa

Na postagem anterior, escrevi que Fernando Pessoa continua atualíssimo. Leia-se: Suas ideias expressas em poemas eternizados por exprimirem, em poucas linhas, reflexões para uma vida inteira continuam atualíssimas.

Veja se concorda comigo, lendo algumas frases do poeta:

"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens."

"Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito."

"Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso."

123º aniversário de Fernando Pessoa

Incrível. Fernando Pessoa faria hoje 123 anos e continua tão atual e vivo na memória das pessoas que uma imagem sua ilustra,  nesta segunda-feira, a home page do Google e seu nome está, desde cedo, nos trends do twitter.

Aqui também vai uma homenagem do blog Nossa Língua ao grande poeta português, principalmente porque é dele um dos meus poemas preferidos. Leia-o:


Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
 Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive.

                                                  Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sem medo do verbo - Parte II

Apesar da estranheza, certas formas do verbo parir podem ser usadas à vontade, até a 1ª pessoa do presente do indicativo e as do presente do subjuntivo. Ele, inclusive, já foi tratado como defectivo (nome que se dá ao verbo que faltam formas). Porém, hoje, sabe-se que não há razão para isso. Veja:
Presente do indicativo: eu pairo, tu pares, ele pare, nós parimos, vós paris, eles parem.
Presente do subjuntivo: (que) eu paira, (que) tu pairas, (que) ele paira, (que) nós pairamos, (que) vós pairais, (que) eles pairam.
Portanto, se uma grávida, te disser: "Eu pairo daqui a uma semana", não estranhe. Ela está afinadíssima com o padrão culto da nossa língua.