terça-feira, 15 de março de 2011

14 de março - Dia Nacional da Poesia (Parte IV)


João Cabral de Melo Neto



Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


segunda-feira, 14 de março de 2011

14 de março - Dia Nacional da Poesia (Parte III)

Cora Coralina



O SENTIDO DA VIDA

Não sei...
se a vida é curta ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não
seja nem curta,nem longa demais,
mas que seja intensa,verdadeira,
pura...enquanto durar

14 de março - Dia Nacional da Poesia (Parte II)

Procura da poesia 

Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.


Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade

14 de março - Dia Nacional da Poesia (Parte I)




Em meio a tanta tragédia natural, está quase passando despercebido o Dia da Poesia, mas o blog Nossa Língua não poderia deixar de homenagear essa paixão.
Mundialmente, a UNESCO instituiu o dia 21 de março para a comemoração, porém, aqui no Brasil comemoramos em 14 de março in memoriam a Castro Alves, baiano e um dos nossos maiores poetas românticos, que nasceu nessa data.


PS: Durante toda esta semana, farei postagens com poemas dos meus poetas preferidos. Espero que gostem.

sábado, 5 de março de 2011

Foliã ou foliona?



É carnaval, galera, e nas ruas de várias cidades brasileiras homens e mulheres caem na folia.
Porém, mesmo em meio a tanta festa, sobra espaço para uma dúvida de português. E a do momento diz respeito ao feminino de folião: Foliona ou foliã?
Bem, embora a forma foliã seja muito usada, os dicionários registram apenas a forma foliona. Portanto, de acordo com o padrão culto da língua, o correto é foliona.
É isso.

Um carnaval de muita paz e alegria, pessoal!

PS: Na ocasião dessa postagem, os dicionários, ainda não registravam a forma "foliã", embora muito usual. Diferentemente do que ocorre hoje, quando já é possível encontrar tal registro em alguns dicionários da nossa língua.  (Atualizado em abril de 2020)