quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O blog internacionalizou-se!


Com quase 30.000 acessos, o blog Nossa Língua ganhou o mundo!
Obrigada, amigos "internacionais"!!




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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Campanha eleitoral começa com erros absurdos de português


A propaganda eleitoral em Porto Alegre começou mal para o PSDB. Nas legendas que acompanhavam as mensagens dos candidatos a vereador apareceram palavras como "ensentivo", "pesso", "disperdiço", "trofel", "pulítica" e "concurço". (Veja imagem abaixo)




Fonte: www.terra.com.br

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Aniversário do blog




Hoje, 17 de agosto, é o 3º aniversário do blog Nossa Língua.
Meus sinceros agradecimentos a todos que acompanham minhas publicações aqui neste espaço.




segunda-feira, 6 de agosto de 2012


Alguns erros dos principais jornais que circulam por aí:






“Depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério, para a satisfação dos habitantes.” (Habitantes do cemitério felizes pela instalação de água corrente???) – JORNAL DO BRASIL

“O aumento do desemprego foi de 0% em novembro.” (Nossa!! Como aumentou!!)

 “O presidente de honra é um jovem septuagenário de 81 anos.” (Jovem de 81 anos?! Septuagenário não seria correspondente a 70?? Quanta confusão!!!)

“Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio.” (Ah.. pensei que fosse um churrasco!)

“Na chegada da polícia, o cadáver se encontrava rigorosamente imóvel.” (E cadáver se mexe????)

“O cadáver foi encontrado morto dentro do carro.” (Alguém já viu um cadáver vivo???)

“Prefeito de interior vai dormir bem, e acorda morto.” (E morto acorda???)

“A nova terapia traz esperanças a todos os que morrem de câncer a cada ano.” (Na cova???) – JORNAL DO BRASIL

“Apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem intensamente.” (O frio não estava filiado ao sindicato grevista) – O GLOBO

“Os sete artistas compõem um trio de talento.” (Hã?) – EXTRA

“A vítima foi estrangulada a golpes de facão.” (Uma nova modalidade de estrangulamento) – O DIA

“No corredor do hospital psiquiátrico os doentes corriam como loucos.”
(Naturalmente….) – O DIA

“Ela contraiu a doença na época que ainda estava viva.” (Jura???) – JORNAL DO BRASIL

“Parece que ela foi morta pelo seu assassino.” (Não diga!!) – EXTRA

“O velho reformado, antes de apertar o pescoço da mulher até a morte, se suicidou.” (Depois de morto o homem ainda conseguiu matar a mulher???) – O DIA

“A polícia e a justiça são as duas mãos de um mesmo braço” (Que aberração!!) – EXTRA

Cuidado com o que você diz!





   No Curso de Medicina, o professor se dirige ao aluno e pergunta:
- Quantos rins nós temos?
- Quatro! Responde o aluno.
- Quatro? Replica o professor, arrogante, daqueles que sentem prazer em tripudiar sobre os erros dos alunos.
- Tragam um feixe de capim, pois temos um asno na sala. Ordena o professor a seu auxiliar. 
- E para mim um cafezinho! Replicou o aluno ao auxiliar do mestre.
O professor ficou irado e expulsou o aluno da sala. O aluno era Aparício Torelly Aporelly (1895-1971), o 'Barão de Itararé'.
Ao sair da sala, o aluno ainda teve a audácia de corrigir o furioso mestre:
- O senhor me perguntou quantos rins 'NÓS TEMOS'. 'NÓS' temos quatro: dois meus e dois seus. 'NÓS' é uma expressão usada para o plural. Tenha um bom apetite e delicie-se com o capim.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

As leituras de Tufão em "Avenida Brasil"


Na novela Avenida Brasil, a personagem Nina, vivida pela atriz Débora Falabela, tem indicado livros de sua biblioteca particular a Tufão, interpretado por Murilo Benício, que, inocentemente (pelo menos é o que aparenta), tem se deleitado com as histórias de cada um deles. O que Tufão não sabe é que essas indicações fazem parte de uma estratégia de Nina para abrir os olhos do patrão em relação à mulher.

O primeiro livro que a cozinheira emprestou ao ex-jogador foi “A metamorfose” de Franz Kafka, uma das mais importantes obras da literatura mundial, conta a história de um homem que é transformado em um inseto monstruoso, cheio de patas. A partir de então, os pais se distanciam e a irmã também começa a sentir medo dele. Mas, como era o único que trabalhava na casa, eles têm que arranjar outro modo de sustento da família. Sozinho, o personagem se vê diante dos conflitos de sua metamorfose, que vai muito além da questão física e destaca os absurdos do comportamento humano.

                                                                                       


O segundo livro foi “Madame Bovary”, de Gustavo de Flaubert. O romance conta a história de uma mulher que trai o marido. (Alguma semelhança com Carminha?)





“A interpretação dos sonhos”, de Sigmund Freud foi outra obra lida por Tufão, cada vez mais interessado em entender o comportamento humano.






Outra leitura do patrão, também indicada pela cozinheira, foi “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, cujo protagonista mantém um relacionamento com uma mulher casada, Virgília. (Alguma lembrança de Carminha e Max?)




E continuando a estratégia de tentar abrir os olhos de Tufão por meio de mensagens ocultas, como não poderia deixar de ser, Nina indicou “Dom Casmurro”, também de Machado de Assis. O romance aborda temas como ciúme e traição, a partir da desconfiança de Bentinho, narrador-personagem, de que sua mulher, Capitu, estaria lhe traindo com seu melhor amigo.




Cheias de mensagens ocultas sobre a trama da novela, todas essas obras são excelentes indicações para os amantes da boa leitura e para aqueles que querem se iniciar nessa área.

Fica a dica.

domingo, 22 de julho de 2012

Lendo...








Bastante corajoso o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, de Luiz Felipe Pondé ataca religiosos, feministas e critica os politicamente corretos dizendo que “são autoritários em sua essência porque supõem estar salvando o mundo”.
 Estou lendo e amando.
À medida que avanço na leitura, me surpreendo com frases memoráveis como:
“O futuro do mundo é ser brega.”
“Os homens não são iguais – os poucos melhores carregam o mundo nas costas.”
“A pressão pela “crítica ao macho” contamina as relações. Porque, na prática, as mulheres só aguentam a sensibilidade masculina até a página três.”

Uma obra que visa mudar a forma como enxergamos as coisas.

Vale muito a pena ler e se deliciar com as tiradas de Pondé.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Dica de leitura


O romance que inspirou a novela.





O romance entre o sírio Nacib e a mulata Gabriela, um dos mais sedutores personagens femininos criados por Jorge Amado, tem como pano de fundo, em meados dos anos 1920, a luta pela modernização de Ilhéus, em desenvolvimento graças às exportações do cacau. Com sua sensualidade inocente, Gabriela não apenas conquista o coração de Nacib como também seduz um sem-número de homens ilheenses, colocando em xeque a lei que exigia que a desonra do adultério feminino fosse lavada com sangue.
Publicado em 1958, o livro logo se tornou um sucesso mundial. Na televisão, a história se transformou numa das novelas brasileiras mais aclamadas mundo afora. E agora, mais uma vez, uma livre adaptação da obra é sucesso na televisão brasileira.

A foto


Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Mário Quintana e Paulo Mendes Campos.

Cuidado com o que você tatua em seu corpo!


Imagine uma pessoa passar tempos pra se decidir por fazer uma tatuagem e, depois de feita, descobrir que ela contém erros absurdos de português. 













PS: Ainda bem que essas foram nas costas. Eles não terão que ver essas barbaridades todos os dias. (rsss)





Mas... o que dizer desta?


Essa nossa língua...












Cuidado com a concordância!



“HAVIAM" COISAS

Felipe Pinheiro, meu saudoso amigo, costumava fazer uma brincadeira que adoro repetir sobre a epidemia do “pra mim fazer”. Quando um “pra mim andar” ou “pra mim comer” lhe feria os ouvidos, meu compadre franzia as sobrancelhas e repetia, entre o irritado e o desesperado: “Mim não faz nada! Mim não anda! Mim não come! Mim não faz coisa nenhuma!”.

Existem infindáveis “mins” realizando façanhas por aí, com o risco, inclusive, de ser aceitos pela norma culta. Se os que defendem que a linguagem já nasce com o homem estiverem corretos, e o neném berrar na sala de parto seguindo a concordância, o “pra mim errar” deve ser um defeito grave de fabricação.
     Meu mim não age. É dos poucos orgulhos que eu tenho do meu português. Tenho um conhecimento pífio de gramática, escrevo de ouvido, herança da escola experimental. Passei anos com medo de desejar um bom-dia por escrito ao João Ubaldo Ribeiro. “Será que tem hífen?”, eu pensava. Um bloqueio assustador, como se estivesse prestando um exame. Só usava frases curtas, quase bilhetes e, mesmo assim, no sufoco.

    Recentemente, eu me correspondi com um conterrâneo do Ubaldo igualmente culto e amante da última flor do Lácio. Fui bem, consegui desenvolver um raciocínio aceitável, mas, lá no fim do último parágrafo da caudalosa epístola, escrevi que “haviam incongruências”. As incongruências não importam, já o haviam…
    “No Brasil, usamos o verbo ter no lugar do haver. ‘Tem um buraco enorme do lado esquerdo.’ Pois bem, mesmo que fossem dois (ou sete) buracos, o verbo permaneceria no singular: ‘tem sete buracos enormes do lado esquerdo’. Igual a ‘há sete buracos enormes do lado esquerdo’. Até aí, tudo bem, ninguém erra se usar o verbo haver: ninguém diz ‘hão sete buracos enormes’. Mas, se vai para o passado, neguinho fica com medo de não fazer a concordância e flexiona o verbo: ‘haviam sete buracos’. O certo é ‘havia sete buracos’. Nem ‘houveram sete assaltos’ (saí do buraco porque não dá para fazer uma frase convincente com buracos e o verbo no pretérito perfeito: houve, houveram; o imperfeito é havia, haviam).
    O certo é ‘houve sete assaltos’. Ou ‘teve sete assaltos’. Claro que com o verbo ter você vai encontrar situações de flexão correta: ‘Os bancos tiveram sete assaltos este mês’. Porque aí o sujeito da frase é ‘os bancos’. É como dizer ‘os bancos sofreram sete assaltos’. Mas dizer que meramente houve assaltos não implica ‘assaltos’ ser o sujeito. Houve o que houve, há o que há, havia o que havia; o verbo haver aí é impessoal. O verbo ter, quando o substitui em casos iguais, também.”

    Agradeci de joelhos a paciência e a aula, mas o lodaçal piorou. E existe? Existem sete buracos? Ou existe sete buracos? Quem existe é o buraco, então, deve ser existem. E os dias? “Hoje é 15 de setembro”? Ou “são 15”? As horas eu sei que são. E faz? É impessoal ou não? “Fazem quinze anos” ou “faz quinze anos”? É faz. A razão, segundo fui informada, beira a filosofia: é porque o tempo é.

    O pediatra do meu filho tinha 14 anos quando enfrentou uma sequência de zeros distribuída democraticamente pelo professor belga de matemática do Santo Inácio. O pai recorreu a aulas particulares com um conterrâneo do mestre. O europeu mal-humorado explicou que só existem quatro operações relevantes: soma, subtração, multiplicação e divisão, depois, escreveu na lousa: 2+2, 2-2, 2×2 e 2:2 e pediu que o aluno resolvesse. Quando o rapaz terminou, o professor aconselhou um reforço em português. A dificuldade estava na leitura do enunciado dos problemas. Todas as falhas de compreensão pertenciam à lógica.
    Nesse quesito, português só perde para a física em matéria de dificuldade.

    O pouco que fixei, hoje, só me serve para entregar a idade.
    A última reforma ortográfica dizimou os acentos. O computador conserta, mas eu redigito o agudo do “o” de “jóia” e “clarabóia”. Não aguento “joia” e “claraboia”. Vôo, também, não tem mais circunflexo, virou “voo”. E não se distingue mais “história” de “estória”, uma sutileza que me agradava imenso.
    Depois de tanta ignorância confessa, só não peço demissão por medo de redigir a carta.
                                                                                                                        Por Fernanda Torres.
Crônica publicada em junho/2012 na revista Veja Rio. 


Anatomia de um leitor












terça-feira, 12 de junho de 2012

Para os namorados...







Por que não incrementar seu presente hoje com uma cartinha de amor ou até mesmo um bilhetinho apaixonado?


Livros para os namorados


Que tal presentear seu amor com um livro?
Abaixo, duas sugestões bem legais. Mas, se você for a uma livraria, com certeza, encontrará outras.




sábado, 9 de junho de 2012

10 de junho - Dia da Língua Portuguesa


10 de junho é o Dia da Língua Portuguesa
Para comemorar esta data, resolvi postar aqui um vídeo com um pouco da exposição, no Museu da Língua Portuguesa, sobre Jorge Amado, ilustre baiano que tão bem usou e divulgou nossa  língua no mundo todo.

Ah! Essa exposição chegará a Salvador em agosto e ficará, por alguns dias, no Museu de Arte Moderna da Bahia. Até lá, veja um pouco dela no vídeo abaixo.


PS: Se quiser continuar vendo detalhes dessa exposição, acesse estes links:
http://www.youtube.com/watch?v=A2dF1MWiycI
http://www.youtube.com/watch?v=xkiuhwhPEB0
http://www.youtube.com/watch?v=Skl9-NTyy80
http://www.youtube.com/watch?v=EKarRdU-0pU
http://www.youtube.com/watch?v=fWHNp9uizjU

Quando a crase muda o sentido
Muitos deixariam de ver a crase como bicho-papão se pensassem nela como uma ferramenta para evitar ambiguidade nas frases


O emprego da crase costuma desconcertar muita gente. A ponto de ter gerado um balaio de frases inflamadas ou espirituosas de uma turma renomada. O poeta Ferreira Gullar, por exemplo, é autor da sentença "A crase não foi feita para humilhar ninguém", marco da tolerância gramatical ao acento gráfico. O escritor Moacyr Scliar discorda, em uma deliciosa crônica "Tropeçando nos acentos", e afirma que a crase foi feita, sim, para humilhar as pessoas; e o humorista Millôr Fernandes, de forma irônica e jocosa, é taxativo: "ela não existe no Brasil".



O assunto é tão candente que, em 2005, o deputado João Herrmann Neto, que morreu em abril deste ano aos 63 anos, propôs abolir esse acento do português do Brasil por meio do projeto de lei 5.154, pois o considerava "sinal obsoleto, que o povo já fez morrer". Bombardeado, na ocasião, por gramáticos e linguistas que o acusavam de querer abolir um fato sintático como quem revoga a lei da gravidade, Herrmann Neto logo desistiu do projeto.


O acento grave (`) no a tem duas aplicações distintas, explica Celso Pedro Luft (1921-1995) no hoje clássico Decifrando a Crase (Globo, 2005: 16):

1) Sinalizar uma fusão (a crase): indica que o a vale por dois (à = a a): "Dilma Rousseff compareceu às CPIs".
2) Evitar ambiguidade: sinaliza a preposição a em expressões de circunstância com substantivo feminino singular, indicando que não se deve confundi-la com o artigo a . "Dilma Rousseff depôs à CPI". Sem a crase, a frase hipotética se revela ambígua: Dilma destituiu a comissão parlamentar de inquérito ou apenas deu depoimento à comissão? O sinal de crase tira a dúvida.

Sinalizar a contração entre vogais idênticas (no caso, a preposição a e o artigo a ) é um desafio que, mesmo quando parece complicado, pode ser intuído pelo usuário do idioma, em regras relativamente simples de ser incorporadas.

Ambiguidade 
A grande utilidade do acento de crase no a , entretanto, que faz com que seja descabida a proposta de sua extinção por decreto ou falta de uso, é a assinalada por Luft: crase é, antes de mais nada, um imperativo de clareza.

Muitas frases em que a preposição indica uma circunstância (instrumento, meio etc.), em sequências do tipo "preposição a + substantivo feminino singular", podem dificultar a interpretação por parte de um leitor ou ouvinte. Não raro, a ambiguidade se dissolve com a crase - em outras, só o contexto resolve o impasse. 

Exemplos de casos em que a crase retira a dúvida de sentido de uma frase, lembrados por Luft em Decifrando a Crase : 

Cheirar a gasolina (aspirar)Xcheirar à gasolina (feder a). 
 A moça correu as cortinas (percorrer) X A moça correu às cortinas. (seguiu em direção a).
O homem pinta a máquina (usa pincel nela) X O homem pinta à máquina (usa uma máquina para pintar).
Referia-se a outra mulher (conversava com ela) X Referia-se à outra mulher (falava dela).

Contexto 
O contexto até se encarregaria, diz o autor, de esclarecer a mensagem em casos como: "vimos a cidade"; "viemos a cidade". "conserto a máquina"; "escrevo a máquina". Um usuário do idioma mais atento intui um acento necessário, garantido pelo contexto em que a mensagem se insere, se a finada testemunha do exemplo a seguir destituiu a relatora da OAB ou prestou depoimento: 
Morta a testemunha que depôs a relatora da OAB.

Mas, em geral, contextos elípticos ainda deixariam dúvidas em exemplos do tipo: "Fique a vontade onde está" ou "A sombra das raparigas em flor".

  Cheirar a gasolina                                                   Cheirar à gasolina 
(aspirar o combustível)                                      (feder tal qual o combústivel)
                      

"Fique a vontade onde está" indica que uma entidade metafísica chamada "vontade" deve se manter suspensa ou que o interlocutor da mensagem deve se sentir confortável?

A falta de clareza, por vezes, ocorre na fala, não tanto na escrita. Exemplos de dúvida fonética, sugeridos por Francisco Platão Savioli, professor e coordenador de gramática e texto no Anglo Vestibulares:

- "A noite chegou." Na linguagem falada há ambiguidade; na escrita, com ou sem o acento, não. Alguém chegou à noite, ao escurecer? Ou foi a noite que chegou no fim da tarde? Como saber o sentido de uma frase como essa, sem o acento?

- "Ela cheira a rosa." A afirmação será ambígua, se oral. Se escrita, terá sentidos diferentes, se houver o acento grave no a que precede "rosa" ou se ele for dispensado. "Ela cheira a rosa" significa que a dama aspira o perfume da rosa. Já "ela cheira à rosa" indica que a princesa tem o perfume da flor. Na escrita, com a crase, nem é preciso explicar ou entender o contexto.

- "Matar alguém à fome." Sem acento, alguém mata a própria fome. Com, mata-se alguém pela fome. Como na África ou em ásperas periferias brasileiras.

Sem o sinal diacrítico, construções como essas serão sempre ambíguas. Nesse sentido, a crase pode ser antes um problema de leitura do que prioritariamente de escrita.


Em expressões com palavras femininas (expressões adverbiais, conjuntivas e prepositivas), há o acento grave de clareza, utilizado por tradição: "às vezes", "à moda de", "à espera", "à medida que", "à custa de", "à prova de" etc.



Embora com expressões adverbiais de instrumento o emprego do acento da crase seja desaconselhado pelos gramáticos, seu uso é frequente no português brasileiro, mesmo quando desnecessário: Escrever a máquina, a mão, a tinta, a caneta (a lápis); ferir a faca (a cacete); calar a bala (a tiro), matar a baioneta (a punhal). Acentua-se, se houver confusão de sentido. Alguém matará uma baioneta? Coisa difícil. Quem aplica o sinal intui um chamado da mensagem ao uso do acento grave de clareza. "Produzir a máquina" será fabricar a máquina ou produzir com a máquina? Então: "Produzir à máquina". Por isso, "pintar a mão" será pintar, desenhar na própria mão, como amantes de tatuagens? Ou pintar com a mão, sem instrumentos, como fazem alguns sensitivos? Então: "Pintar à mão".


Mesmo a regra da crase como índice de contração com "distância" tem sido interpretada pelos usuários do idioma como dependente do contexto.
Pela regra tradicional, não há acento, se a "distância" estiver indeterminada:

"Ficar a distância". "Seguiu-a a distância". "Manteve-se a distância segura". Se a "distância" estiver definida, determinada numericamente, há acento:"Ficou à distância de dois metros" . "Viu o corpo à distância de três passos".



Influência 
Há, no entanto, autores que sempre acentuam o a dessa locução. Não por acaso, dicionários como Houaiss incorporam as diferenças de sentido que os usuários da língua tendem a sentir ao usar a locução.

No sentido de "de longe" e "de um ponto distante", muitos brasileiros sentem que faz sentido usar crase. Exemplo de Houaiss: "a sentinela vigia à distância. Entende-se "à distância" como "localizado a (certa) distância; distante, afastado". No sentido de "ao longe" e "em um ponto distante" não se sentiria a necessidade da crase: "viram algo movendo-se a distância". 

O que os usuários intuem do sentido implícito à frase parece influir, por exemplo, no uso da crase com nome próprio feminino, o que torna o acento muitas vezes optativo: "Fizeram uma homenagem à Maria" revela mais intimidade do que "Fizeram uma homenagem a Maria".

Assim também "desenhei a caneta" x "desenhei à caneta"; "a polícia recebeu a bala" x "a polícia recebeu à bala"; "dar à luz" x "dar a luz".
Expressões 

Em crase, a intuição e a generalização de exemplos concretos podem ser mais efetivas que a decoreba de regras. 

Se intuímos a regra básica de que só se usa crase diante de palavras femininas quando há uma preposição seguida de um artigo, evitamos ocorrências como "à 80 km", "à correr" ou "à Pedro". Afinal, nunca pensamos em crase com palavras masculinas ou verbos: daí não haver em "a lápis", "a contragosto", "a custo". 

Se lembramos que a crase serve para eliminar uma ambiguidade, também evitamos tirar a crase em contextos que pedem, por exemplo, "à beira", "à boca miúda", "à caça". Assim, fica muito mais fácil pensar a crase. 

Por: Luiz Costa Pereira Junior, com a colaboração de João Jonas Veiga Sobral.
Fonte: Revista Língua Portuguesa, nov. de 2009.