segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Momento Mário Quintana II
BILHETE
Se tu me amas,
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
.....tem de ser bem devagarinho,
.....amada,
.....que a vida é breve,
.....e o amor
.....mais breve ainda.
Mário Quintana
Gregório de Matos, poeta baiano
Que falta nesta cidade?... Verdade
Que mais por sua desonra?... Honra
Falta mais que se lhe proponha?... Vergonha
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Quem causa tal perdição? ... Ambição.
E o maior desta loucura? ... Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio* e sandeu*,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.
[...]
Que mais por sua desonra?... Honra
Falta mais que se lhe proponha?... Vergonha
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.
Quem a pôs neste socrócio*? ... Negócio.Quem causa tal perdição? ... Ambição.
E o maior desta loucura? ... Usura.
De um povo néscio* e sandeu*,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.
[...]
E que justiça a resguarda?... Bastarda
É grátis distribuída?... Vendida
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.
[...]
A Câmara (1) não acode? ... Não pode.
Pois não tem todo o poder? ... Não quer.
É que o governo a convence? ... Não vence.
[...]
(1) As Câmaras tinham grande poder no Brasil colonial: arrecadavam impostos, resolviam os problemas das comunidades, mantinham a segurança, estabeleciam relações com os governadores, etc.
*Socrócio: palavra criada pelo autor, indicando roubalheira, rapinagem.
*Néscio: ignorante.
*Sandeu: idiota.
PS: É incrível como, mais de três séculos depois, essas palavras de Gregório de Matos continuam tão atuais.
domingo, 16 de janeiro de 2011
Leitura no ponto
Fiquei encantada com essa imagem que encontrei no Google. Um ponto de ônibus e de leitura em Paris.
Imaginei como seria boa uma iniciativa dessa nas estações de transbordo de Feira de Santana e, pesquisando, descobri que, em novembro do ano passado, a prefeitura de São Paulo instalou a primeira biblioteca num ponto de ônibus. Ela fica no Terminal Sacomã e dispõe de um acervo com mais de 2.400 livros à disposição da população que passa por ali.
sábado, 15 de janeiro de 2011
"O Pequeno Príncipe" - Vale a pena ler!

Quem ainda não leu a obra-prima "O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupery não sabe o que está perdendo.
Apesar de o título nos remeter ao universo infantil, trata-se de uma obra que nos permite reflexões muito profundas acerca da vida, do nosso relacionamento com o outro...

Vocês estão dispostos(ó) ou dispostos(ô)?
Você já ouviu falar em plural metafônico?
Alguns substantivos quando flexionados no plural trocam a vogal tônica fechada (ô) pela tônica aberta (ó). Esse é o chamado plural metafônico. Essa palavra vem do grego metafonia [met(a) + fon(o) + ia] que, em gramática, significa alteração do timbre de vogal fechada para vogal tônica aberta. Assim, temos: povo (ô) / povos (ó), tijolo (ô) / tijolos (ó)...
Dia desses, flagrei um repórter da Globo falando "Vocês estão dipostos (ô)?" Essa fala me fez lembrar tantas outras confusões em torno desse tipo de plural que ouço por aí, como: rolos (ó), cachorros (ó), ossos (ô), miolos (ô). Por isso, resolvi fazer essa postagem para ajudá-los a não cometer barbaridades como essas.
A dica é a seguinte:
1) Se a palavra possui feminino, o plural masculino assume o timbre da forma feminina:
masculino feminino plural bobo (ô) boba (ô) bobos (ô)
novo (ô) nova (ó) novos (ó)
Exceção: sogro (ô) – sogra (ó) – sogros (ô)
2) Quando há consoante nasal m ou n, o timbre da vogal é sempre fechado:
singular plural
gomo(ô) gomos (ô)
trono (ô) tronos (ô)
3) Quando a palavra não se encaixa nos dois casos anteriores, é comum a abertura do timbre da vogal o no plural:
singular plural
globo (ô) globos (ó)
olho (ô) olhos (ó)
4) Os substantivos femininos conservam no plural o mesmo timbre do singular:.
singular plural
arroba (ô) arrobas (ô)
bolha (ô) bolhas (ô)
Para mim ou para eu? Parte I
"Hoje não vai dar pra mim fazer esse serviço..."
"Saiu e deixou os pratos do almoço pra mim lavar sozinha"
"Ela fez um bolo tão gostoso pra mim comer"
Não aguento mais ouvir frases como essas.
A audição da última é a mais sofrível pra mim. "É você quem vai comer o bolo ou ele vai comê-la, criatura?" Não aguentei e soltei essa dia desses para uma amiga. Então.. segue aqui a explicação. Espero poder ajudar.
O pronome oblíquo MIM jamais deve ser empregado como sujeito. Isso fica a cargo de outro, também de 1ª pessoa, só que do caso reto. O pronome EU.
Então, de acordo com o padrão culto da língua, deve-se dizer:
"Hoje não vai dar para EU fazer...
"Saiu e deixou os pratos do almoço para EU lavar"
"Ela fez um bolo tão gostoso pra EU comer"
Observe que, nesses casos, o pronome EU é sujeito dos verbos que o seguem.
Para mim ou para eu? Parte II
Alguns colegas costumam explicar esse caso dizendo que não se emprega o pronome MIM antes de verbos no infinitivo. O que é um equívoco. Há cinco casos em que podemos usá-lo antes de infinitivo: Diante dos verbos CUSTAR, FALTAR, BASTAR e SER ou ESTAR (Esses dois últimos com adjetivos como difícil, fácil, certo, complicado.).
Então, o correto é:
Basta para mim ter você ao meu lado. E não: Basta para eu ter você...
Custa para mim entender esse assunto. E não: Custa para eu entender esse assunto.
Falta para mim entender esse assunto. E não: Falta para eu entender...
Resta para mim falar um pouco mais. E não: Resta para eu falar...
É muito fácil para mim falar sobre português. E não: É muito fácil para eu falar...
Observe que em todos esses exemplos o pronome MIM não exerce a função de sujeito.
É só colocar essas frases na ordem direta. Exemplo: Ter você ao meu lado basta para mim. O sujeito, portanto, é a oração "Ter você ao meu lado" e não o pronome oblíquo em questão.
Sendo assim, a regra é: O pronome MIM não pode exercer a função de sujeito no uso culto da língua.
Por favor, não saia mais por aí dizendo:
"Peguei esse dinheiro pra mim comprar um livro."
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
De Drummond para nós...
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
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